Tava à toa na vida, resolvi trabalhar. Ganhar o pão com o suor do meu rosto, essas coisas todas. Problema é que eu não entendia lá muito de ofícios, não tinha nenhuma qualificação. Ter vencido um campeonato de kart em Paverama aos 12 anos não tornava meu currículo exatamente irrecusável.
Aí fiquei sabendo daquele curso de biscuit, fui lá e me matriculei. Troço quente, diziam. Pegando a manha do biscuit, poderia ganhar uma grana às custas das donas-de-casa, que gostam de pendurar essas merdas na geladeira.
O negócio era mesmo promissor: geladeira todo mundo tem - se não tem, ainda vai ter, com o beneplácito das Casas Bahia. Sem falar em freezer, frigobar, mural, compotas, etc.
Céus, um mercado espetacular se desvelava à minha frente. Dancei frevo a noite inteira comemorando a fortuna iminente.
Já na primeira aula, a realidade crua e nua me estapeou brutalmente a face: como colegas de turma e futuras concorrentes, 20 ou 30 garotas de 15 anos bem mais prendadas que eu.
Quanta inveja nesse mundo. Mal esboçara meus honestos planos de auferir fortuna com o biscuit e já tencionavam me tirar o pão da boca desta forma. Indignante.
Apesar do revés inicial, não me deixei abater. A concorrência seria dura, a batalha renhida, mas minha argúcia haveria de me distinguir daquela chusma adolescente.
E foi quase isso o que aconteceu.
Se por um lado as moças me superavam em prendas, por outro não primavam exatamente pela criatividade. Pra se ter uma idéia, enquanto modelavam melancias e laranjas sorridentes (entre outras formas simpáticas), elas conversavam sobre os mais originais assuntos de que se possa imaginar: novela das oito, RBD, vida amorosa local. Fulana ficou com esse, Beltrana chifrou aquele, e por aí vai. A coisa toda me revoltava.
"Mas será que só pensam em picuinha, em bandalheira?", mais de uma vez pensei em esbravejar. Alguém tinha que dar a real para aquela gente. "Nunca ouviram falar em Virgílio, em Horácio?"
Eu não fazia idéia de quem foram Virgílio e Horácio, mas já tinha ouvido falar. Era um bom começo. Cioso de minha superioridade intelectual, passei a encarar com maior complacência aquela asneira toda.
Foi quando outra idéia de gênio me ocorreu: biscuit cult. Uma linha de biscuit totalmente vanguardista, com peças retratando os grandes nomes de que todo sujeito sabido já ouviu falar: Virgílio, Horácio, Dante, Padre Anchieta - uma penca de nomes. Biscuit cult, ah. A doce fortuna voltava a sambar voluptuosa à minha frente. Era pegar a manha do biscuit e começar a produção.
Dois dias depois, perdi as duas mãos num acidente de Lambretta.