Coletanhas

October 1, 2008

Sobre libros e labregos

Filed under: Uncategorized

O néscio, quando se interessa por um bom livro, sempre o faz pelas razões erradas. Decamerão porque (ouviu dizer) "tem putaria", A Divina Comédia porque "detona a Igreja", etc, etc.

Um pedestre pode perguntar, "e quais as razões certas para se interessar por um livro?"

Bom, qualquer uma que não envolva "ouvi dizer", "tem putaria" e "detona a Igreja" já tá meio que valendo, acho.

Neste instante, um sujeito chamado Veja O Lado Bom Das Coisas sai de um arbusto, dedo em riste:

- Veja o lado bom das coisas. É no mínimo louvável que o néscio leia, ainda mais literaturas de tal calibre e blablablá.

Deus me livre questionar A Importância da Leitura e Tudo Isso. Daí a crer que um néscio possa ser salvo pelo tal calibre… - bem, só se for 38 ou assemelhado.

September 19, 2008

Escrevendo Difícil

Filed under: Comportamento

É muito fácil escrever difícil. Com um dicionário aberto nas mãos, qualquer energúmeno pode transformar um texto medíocre no que a choldra convencionou chamar de difícil. Basta acrescentar palavras como "admoestar", "capcioso", "soçobrar", de maneira aleatória e tresloucada. Frases vagas e citações obscuras também ajudam, para conferir aquele falso ar de erudição.
Pronto, você está escrevendo difícil.

- Marlene, viu como o Seu Genésio anda escrevendo difícil?
- Ah, é?
- Ô
- Muito difícil?
- Incompreensível

Seu Genésio, dono de quitanda, escrevia difícil no caderninho de fiado. "Inadimplente", "outorgante", "procrastinação". Suas palavras - colhidas cuidadosamente de um volume ensebado de Aurélio Buarque - assombravam Dois Lajeados.

July 21, 2008

Observação nº 697

Filed under: Comportamento

Já notaram que, em qualquer discussão envolvendo a obra de Richard Wagner, não há imbecil que resista a aludir ao nazismo?

July 9, 2008

Paradigma LFV

Filed under: Blogs, Comportamento

Não há blogueiro que se meta a escrever humor que não tenha sido comparado, ao menos uma vez, a Luis Fernando Verissimo. E a comparação quase sempre parte (as regras não são tão rígidas aqui) daquela colega lindinha (porém burrinha) da faculdade, mais ou menos nestes termos:

Coleguxo, muito bala teu blogger! Lembra LFV!! Bjo da Lú

Se o blogueiro for sensato e a vaidade não o cegar, perceberá que a comparação, por mais apropriada que pareça, é gratuita. Tão gratuita quanto uma vacina antitetânica.

Para essa gente, qualquer coisa vagamente engraçada "lembra LFV", pois é o único humorista que leram - se é que leram.

July 8, 2008

Vingança do passado

Filed under: Uncategorized

Quando ouço falar que determinado escritor fez de seu livro um instrumento para "se vingar do passado", imagino o sujeito dando livradas em velhas tias e ex-colegas do primário.

Daí o gosto pelas edições em capa dura, talvez. A vingança é mais efetiva.

Quer dizer, deve doer bem mais.

May 25, 2008

Explicando a Era Digital

Filed under: Música

Quando me dizem que determinado sujeito "entende de música" - o Juarez, por exemplo -, quase sempre desconfio.

- O Juarez entende muito de música.
- Xi, é ver pra crer.

Entender de música hoje em dia tem menos a ver com música do que com um bom computador (internet rápida, bastante espaço em HD, etc).

Qualquer moleque de 15 anos que tenha a discografia do Rush em mp3, ou que se meta a baixar merengue, polca húngara, essas coisas, torna-se automaticamente um perito musical - mesmo que não saiba o que é um Fá sustenido.

- Autocrítica agora, sir?

Absolutamente. Cursei Violão Básico pelo Instituto Universal.

May 22, 2008

The Go! Team - Thunder, Lightning, Strike (2004)

Filed under: Música

 

Esse disco é a melhor coisa que ouvi nos, ahm, deixe-me ver, "últimos tempos". (estou em dúvida se é a melhor coisa que ouvi nos últimos tempos ou em toda a minha vida, mas deixa pra lá).

O caso é que não canso de ouvir. Estou há três ou quatro dias sem sair à rua, só de pijamas, fazendo minhas meias de lã deslizarem sobre o parquet ao som de pérolas pop da melhor qualidade como Ladyflash, Bottle Rocket e Huddle Formation. Alegria imensurável.

Pensava em resenhar o disco, desisti. "Sonzeira absurda" me parece a melhor - senão única - descrição possível.

May 16, 2008

Vivendo a vida intensamente

Filed under: Comportamento

Andava lendo demais, aconselharam-me a viver a vida mais intensamente. Fazer a coisa valer a pena e tudo isso.

Pois bem. Quero ir ao teatro hoje mesmo apenas para gritar, ao fim do espetáculo, bravo, bravo. E quero levar comigo sujeito que grite bravíssimo, num complemento à ovação.

Ninguém pode afirmar que vive a vida intensamente sem ter gritado bravo no teatro ao menos uma vez. 

April 23, 2008

Já se foi o padre voador!

Filed under: Uncategorized

Soltar balão é perigoso, já dizia a Rede Globo, sempre preocupada com o nosso bem-estar.

Ao que parece, esqueceram de avisar o padre Adelir. Tsc, tsc.

Fã de Gusmão e candidato a padre voador, Adelir se perdeu no céu no último domingo, enquanto tentava dar volta ao mundo em 80 dias preso a balões de gás.

(as razões? coisa de bater recordes, entrar para a história, não sei bem).

Enfim, uma singela homenage ao padre voador. 

April 18, 2008

Biscuit Cult

Filed under: Conto

Tava à toa na vida, resolvi trabalhar. Ganhar o pão com o suor do meu rosto, essas coisas todas. Problema é que eu não entendia lá muito de ofícios, não tinha nenhuma qualificação. Ter vencido um campeonato de kart em Paverama aos 12 anos não tornava meu currículo exatamente irrecusável.

Aí fiquei sabendo daquele curso de biscuit, fui lá e me matriculei. Troço quente, diziam. Pegando a manha do biscuit, poderia ganhar uma grana às custas das donas-de-casa, que gostam de pendurar essas merdas na geladeira.

O negócio era mesmo promissor: geladeira todo mundo tem - se não tem, ainda vai ter, com o beneplácito das Casas Bahia. Sem falar em freezer, frigobar, mural, compotas, etc.

Céus, um mercado espetacular se desvelava à minha frente. Dancei frevo a noite inteira comemorando a fortuna iminente.

Já na primeira aula, a realidade crua e nua me estapeou brutalmente a face: como colegas de turma e futuras concorrentes, 20 ou 30 garotas de 15 anos bem mais prendadas que eu.

Quanta inveja nesse mundo. Mal esboçara meus honestos planos de auferir fortuna com o biscuit e já tencionavam me tirar o pão da boca desta forma. Indignante.

Apesar do revés inicial, não me deixei abater. A concorrência seria dura, a batalha renhida, mas minha argúcia haveria de me distinguir daquela chusma adolescente.

E foi quase isso o que aconteceu.

Se por um lado as moças me superavam em prendas, por outro não primavam exatamente pela criatividade. Pra se ter uma idéia, enquanto modelavam melancias e laranjas sorridentes (entre outras formas simpáticas), elas conversavam sobre os mais originais assuntos de que se possa imaginar: novela das oito, RBD, vida amorosa local. Fulana ficou com esse, Beltrana chifrou aquele, e por aí vai. A coisa toda me revoltava.

"Mas será que só pensam em picuinha, em bandalheira?", mais de uma vez pensei em esbravejar. Alguém tinha que dar a real para aquela gente. "Nunca ouviram falar em Virgílio, em Horácio?"

Eu não fazia idéia de quem foram Virgílio e Horácio, mas já tinha ouvido falar. Era um bom começo. Cioso de minha superioridade intelectual, passei a encarar com maior complacência aquela asneira toda.

Foi quando outra idéia de gênio me ocorreu: biscuit cult. Uma linha de biscuit totalmente vanguardista, com peças retratando os grandes nomes de que todo sujeito sabido já ouviu falar: Virgílio, Horácio, Dante, Padre Anchieta - uma penca de nomes. Biscuit cult, ah. A doce fortuna voltava a sambar voluptuosa à minha frente. Era pegar a manha do biscuit e começar a produção.

Dois dias depois, perdi as duas mãos num acidente de Lambretta.

March 28, 2008

Na faculdade

Filed under: Uncategorized

Quando eu disse que meu irmão se chamava Derby ela não acreditou.

- Ninguém se chama Derby.
- Meu irmão sim.

Ela ficou chocada. Saí de canto e fui comprar um sacolé.

Outro dia no intervalo ela veio me procurar.

- Ainda não acredito que teu irmão se chama Derby. Me diz que é mentira.
- É mentira.
- Sério?
- Sim.
- Teu irmão não se chama Derby?
- Não, ele se chama L&M: Luiz Marcos. Pode respirar aliviada.

Ela não respirou aliviada - antes bufou pelas ventas.

- Vai te tratar, recomendou, entre outros ditos não muito lisonjeiros.

Nunca pensei que mentir nome de irmão, passatempo tão lírico e inócuo, fosse caso para tratamento.

Imagine o que não recomendaria se descobrisse que nem irmão eu tenho.

Provavelmente internação.

March 7, 2008

Pais e Filhos

Filed under: Livros

"Existe um pequeno cemitério num dos mais distantes recantos da Rússia. Como todos os cemitérios, tem um aspecto triste: as valetas que o cercam estão cobertas de vegetação rasteira. As cruzes de madeira cinzenta estão arruinadas e apodrecem sob suas coberturas outrora pintadas. As lousas funerárias estão desmanteladas, como se alguém as empurrasse de baixo. Duas ou três arvorezinhas sem folhas dão uma sombra escassa. As ovelhas pastam tranquilamente sobre os túmulos…
Entre estes túmulos existe um fora do alcance dos homens e dos animais. Só os pássaros o frequentam e ali cantam ao romper do dia. Cerca-o uma grade de ferro. Dois pequenos abetos ladeiam a tumba. Aqui está sepultado Eugênio Bazárov. De quando em quando, de um povoado próximo, vem visitar este túmulo um casal de velhos, trôpegos e débeis, marido e mulher. Apoiando-se um ao outro, caminham com com passos lentos e arrastados. Aproximam-se da grade de ferro, caem de joelhos e choram muito tempo, examinando atentamente a pedra indiferente da lousa tumular debaixo da qual repousa o seu filho. Trocam uma breve palavra, espanam o pó da lousa, endireitam o ramo do abeto e rezam de novo. Não têm coragem de abandonar esse lugar, onde se sentem mais perto do filho, da saudade… Será possível que as suas orações e suas lágrimas sejam inúteis? Será possível que o amor, o amor sagrado, amor dedicação suprema, não seja onipotente? Não! Seja qual for o coração apaixonado, pecador e revoltado que se esconda num túmulo, as flores que crescem sobre ele nos fitam tranquilas, com os seus olhos inocentes. Elas não falam apenas da calma eterna, da grande, da infinita calma da natureza "indiferente": falam também da paz e da vida eternas…
1881."

Pais e Filhos, Ivan Turgueniev. 

February 29, 2008

Da série “recordar é viver”

Filed under: Ego, Cotidiano

Ontem eu vi uma cena grotesca. Uma mulher caindo de um ônibus. Eu andava pelo centro, a caminho do SERVIÇO, quando um Expresso União - desses que varem as grotas mais absurdas do VALE - se aproximou do cordão da calçada. Não sei ao certo o que aconteceu, mas suponho que a culpa tenha sido do mordomo, digo, do motorista, que abriu as portas cedo demais - antes mesmo da parada. Bastou um singelo BREQUE para que uma roliça e digníssima senhora abandonasse a lotação em desengonçada corrida. Aquilo foi de uma plástica incrível. Ela venceu os degraus, correu alguns metros totalmente desequilibrada e então rolou feito uma MELANCIA. Só vendo pra acreditar. Depois de bater a poeira das calças (procedimento clássico nesse tipo de tombo), a senhora voltou apressada pra dentro do ônibus — na certa para agredir o motorista com uma bolsada –, e então não vi mais nada. Nem deu tempo de "pensar" em ajudá-la.

Surpreendentemente, não me senti tentado a gracejos quando do incidente, muito pelo contrário. Fiquei chocado. Eu mesmo já DESPENQUEI de um ônibus em movimento, me sujando todo de barro. Situação verdadeiramente perigosa. Eu tinha cinco anos de idade, estudava numa escolinha em SÃO JACÓ, interior de Estrela. Minha mãe naquela época era professora do município, justamente na tal escolinha, o que explica a minha presença naquelas grotas inacreditáveis. Pois bem, no dia do lendário acidente, as circunstâncias foram essencialmente as mesmas. O motorista abriu as portas mui precocemente, eu estava parado já nos degraus, veio um SOLAVANCO mais fodido e fui arremessado pra fora do bus. O mais grotesco de tudo foi a cabeçada que acertei num velho que fumava palheiro parado na beira da estrada, esperando a condução. Bem no meio do tórax. Depois do choque, rolamos bonito numa poça de lama às 6h30 de uma manhã fria pra caralho. Como toda criança hiperativa geração super-nescau (energia que dá gosto), me ergui instantaneamente, quase num pulo. Já o velho, cruiz, ficou na lama se debatendo feito um MUÇUM, o ar lhe faltando nos pulmões e essas coisas lindas que só o tabagismo faz por você. O pior de tudo foi ter que assistir às aulas coberto de barro, estávamos num baita interior desgraçado e ônibus só de manhã e ao meio-dia.

Ê, São Jacó.

December 23, 2007

Me acho melhor que todo mundo

Filed under: Uncategorized

Pelo menos quando acordado. Nem preciso procurar. 

December 18, 2007

Coisas que acontecem

Filed under: Cotidiano

Adepto fosse de gírias e expressões vulgares, diria que paguei um enorme MICO na sexta passada. Estava no colégio onde minha mãe leciona, os motivos não convém explicitar. O caso é que, já de saída, vi ao longe uma ex-professora caminhando pelo pátio. E o que é pior, ela me viu também. Acompanhanda de 20 ou 30 alunos de ensino médio, interrompeu suas explanações - possivelmente sobre o Arcadismo, visto a escolha do pátio florido e agradável, ou talvez alguma bela lição de vida inspirada em Sociedade dos Poetas Mortos, filme que assisti cinco vezes apenas no ensino fundamental - bem, ela interrompeu suas explanações para me chamar e acenar insistentemente. Samuel, Samuel, SAMUEEEEL. Medo. Pensei em me enfiar num arbusto, correr ou simular desmaio, mas a empresa seria um tanto árdua. Naquela altura todos já se voltavam na minha direção, esperando que eu me manifestasse. E não tive outra alternativa viável senão me aproximar. Saudei a velha MESTRA com um rápido abraço e aguardei aflito o que seria feito de mim.
Então ela começou a conversar. Comigo e com a turma, ao mesmo tempo. Era o que eu temia. UMA PALESTRA. Perguntou se eu andava estudando muito. Sim, respondi. Andava estudando muito. Perguntou também se eu andava escrevendo bastante. Sim, respondi. Andava escrevendo bastante. A situação era tão incômoda que eu não conseguia fazer outra coisa que não repetir as perguntas de minha interlocutar em um dramático tom de exclamação. E ela, por sua vez, não dava indícios de que findaria a palestra por aí.

"Gente, olhem esse menino, ele escreve muito bem".

Nesse momento, tudo que me restava de dignidade foi lançado por terra. Os garotos se mostraram indiferentes, e com razão; as garotas me fitaram desconfiadas, quase despeitadas (tirando uma morena a minha esquerda, bela, er, comissão), aparentemente incrédulas de que aquele alemão despenteado e monossilábico fosse capaz de escrever qualquer coisa mais interessante do que uma redação entitulada Minhas Férias. Uma garota inclusive se mostrava predisposta à perguntas, quando meu telefone tocou. Salvo. Pedi licença educadamente e me afastei. Ao dobrar a esquina, corri, corri e corri, atendendo a ligação com um entusiástico EU TE AMO! Selton Mello nem estranhou.

December 9, 2007

Band exibirá filmografia pornô de John Candy

Filed under: Uncategorized

No final deste mês de dezembro a Band deve exibir três filmes eróticos estrelados pelo ator americano John Candy, morto numa tragédia de helicóptero em 94.

Censurados em nove estados americanos, os filmes ("Se Meu Pênis Falasse!", "Uma Orgia Do Barulho" e "Curtindo Ereções Adoidado") satirizam o humor pastelão dos anos 80 através da pornografia. As obras constituem um lado pouco conhecido da carreira de John Candy.

Sinopse

- Se Meu Pênis Falasse! - marinheiro aposentado percorre a Inglaterra de fusca à procura de aventuras sexuais.

- Uma Orgia Do Barulho - policial persegue assaltante pelas ruas de Chinatown e acaba dando numa animada festa coreana onde ninguém é de ninguém.

- Curtindo Ereções Adoidado - diretor de colégio de Chicago tira dia de folga e leva secretária para fazer amor pelos mais variados pontos da cidade.

Os filmes irão ao ar na madrugada, no Cine Privé.

December 7, 2007

Seu, seu… cafajeste!

Filed under: Uncategorized

Mulheres que chamam homens de cafajeste. Será que elas pensam que nos importamos? Será que elas pensam estar agredindo?
Nunca ouvi falar de homem que tenha caído em depressão por ser chamado de cafajeste. Ou que teve sua imagem maculada por causa disso. Ao contrário. Basta uma mulher gritar cafajeste a um homem para que outras cinco ou seis mulheres se interessem por ele imediatamente.

November 27, 2007

O caso da inveja no mundo

Filed under: Uncategorized

Nunca conheci pessoa que se consulte com pai ou mãe-de-santo que não seja vítima de inveja. Não importa a renda, idade ou instrução. Quem procurar por consulta espírita não vai encontrar outra coisa: inveja, muita inveja.

E a coisa nunca pára por aí. Vai mal de saúde? Encosto. Perdeu dinheiro no bingo? Olho gordo. Caiu e quebrou a bacia? Mau-olhado.

Naturalmente, quanto mais estúpido, miserável, azarado ou indolente for o sujeito, maior a propensão a se deixar seduzir por essa cantilena de sortilégios maléficos e más vibrações. Não raro o sujeito larga de mão a própria vida e passa o resto da existência sentado no cordão calçada, berrando impropérios contra inimigos ocultos ou percorrendo rodas de chimarrão da comunidade para narrar, com voz lamuriosa, a inveja do qual é alvo.

Enfim, tudo isso me deixa chocado: é muita macumba, é muito inveja pra tão pouca gente interessante no mundo.

November 23, 2007

Modern life is rubbish

Filed under: Região

Sempre que saio por aí de bicicleta, especialmente nas manhãs de sol, quando posso divisar o belo contorno dos morros quase beijando as nuvens, chego à conclusões fantásticas acerca da existência. A origem divina do mundo, por exemplo. Estou certa de que Deus não criou dias tão belos assim para que os desperdiçassemos em redações, escritórios, gabinetes de prefeituras. Não, mil vezes não. Deveríamos estar bem longe daqui, cultivando as terras férteis desse imenso e pujante Brasil. Escalando penhascos, caminhando por campos verdejantes, pescando à beira de regatos cristalinos.

É cada vez mais profunda a certeza de que eu seria um bom homem do campo, apesar de não fumar palheiro e odiar mosquitos. Não que eu já não seja quase um - temos em casa dois cachorros, cinco gansos e duas dezenas de laranjeiras e bergamoteiras. Também já tivemos porco, boi e avestruz, antes de baixaram lei proibindo esse tipo de bicho em perímetro urbano. Ainda assim, falta alguma coisa. Um clima bucólico, um pequeno açude (com cisnes e pedalinho), mais árvores, e acima de tudo, menos VIZINHANÇA. Não passa um dia sem que levantem um PALHOÇA aqui na rua.

* Nada contra o SONHO DA CASA PRÓPRIA, kitnets, cabanas, palhoças, casas de barro ou de pau a pique. Tudo contra vizinhos em geral. É dramática a súbita explosão demográfica de meu bairro, outrora ermo, agradável e silencioso.

No mais, os vizinhos ABASTADOS quase sempre são os mais inconvenientes, por uma simples razão: seus aparelhos de som são mais potentes.

November 20, 2007

Como ser importante no interior

Filed under: Região

Em minha cidade natal, a pessoa que atender um telefone depois das 20h (início do período noturno conhecido como Tarde da Noite) corre o risco de ouvir perguntas cretinas (e aparentemente inocentes) como "você estava deitado?".

Costumo ser sincero:

- Sim
- Desculpe, não queria te tirar da cama
- Oh, não. Eu estava no sofá

Quanta pretensão, meu povo, quanta pretensão. Tentam me tirar da cama Tarde da Noite com um ligação. Como se minha notória e monumental preguiça permitisse me erguer da cama para atender telefone. Ainda mais Tarde da Noite.

Não guardo rancores, todavia. As causas são culturais. No interior, não há pessoa mais distinta e importante do que aquela com auto-confiança suficiente para tirar gente da cama Tarde da Noite com uma ligação. Ainda que não tenha nada a dizer.

* Também já tirei gente da cama Tarde da Noite com uma ligação. Foi no Litoral Norte, durante as férias de verão. Ligação direta numa retro-escavadeira da Prefeitura. Uma barulheira ensurdecedora. Devo ter tirado a rua inteira da cama. Nunca corri tanto.






















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